Na 41a Conferência Mundial do Escutismo (a assembleia geral da Organização Mundial do Movimento Escutista, onde têm assento 169 associações escutistas nacionais reconhecidas), realizada em Agosto de 2017, no Azerbaijão, foi aprovada uma revisão de carácter constitucional do Método Escutista (link). Esta tem como elemento central a adição de uma “oitava maravilha” (neste texto apelidada de componente), à composição do Método Escutista, a metodologia adoptada pelo fundador e, desde o início do Escutismo, continuamente aplicada de forma ortodoxa “como” forma de atingir a Missão do Movimento.

A consequência de a Conferência Mundial do Escutismo ter adoptado esta adição ao Método Escutista é que todas as associações terão de seguir o exemplo – introduzir este componente nas suas constituições, e, naturalmente, rever os seus programas educativos para uma aplicação coerente e actualizada.

A realidade é mais complicada. As 169 associações, primeiramente, terão que que verdadeiramente compreender o fundamento pedagógico desta alteração e o seu impacto prático na implementação dos seus programas educativos nacionais.

Este artigo pretende esmiuçar os dois conceitos deste novo componente do Método Escutista – “Envolvimento” e “Comunidade” à luz de 3 argumentos: um histórico e dois de natureza pedagógica.

A perspectiva histórica evidencia que a ideia de envolvimento na comunidade é parte da essência do Movimento. O Escutismo foi criado com uma função social, nomeadamente para dar resposta a problemas sociais que afectavam a comunidade, particularmente os jovens. Nas primeiras décadas da história do Movimento foram várias as vezes que Baden-Powell se referiu e incluiu em publicações de referência a ideia de serviço à comunidade e a ideia de que o propósito de qualquer escuteiro deve ser o de servir a sua comunidade e o seu país. O quarto artigo da Lei, os segundo e terceiro Princípios e o próprio mote do Escutismo “Sempre Alerta” baseiam-se nesta mesma ideia.

Analisando a nova componente adicionada ao Método Escutista de uma perspectiva histórica, poder-se-á afirmar que esta acrescenta valor à versão do Método Escutista baseada em sete componentes? Não.

Uma primeira perspectiva pedagógica pode ser observada segundo a dicotomia “copo meio-cheio / copo meio-vazio”. Copo meio-cheio como sendo um reconhecimento da perspectiva histórica, ou seja, se esta ideia de ligação à comunidade esteve presente na mente e palavras do Fundador e foi depois reflectida na Lei e Princípios, porque não reconhecê-la como um dos componentes integrantes do Método Escutista?!

Copo meio-vazio porque o Programa Educativo, enquanto “ferramenta” essencial para atingir a Missão do Escutismo, ele próprio enquadra a ideia de comunidade em toda a sua extensão:

  • O quê? Actividades desenvolvidas, maioritariamente no contexto da comunidade, e onde essas mesmas actividades reforçam o sentido de pertença à comunidade.
  • Como? Utilizando o Método Escutista onde, como já referido, a ideia de comunidade está enquadrada na Lei e Princípios. Mais, é uma verdade à la palice que os principais “actores” do Escutismo, crianças e jovens, vêm da comunidade e a ela retornam, fazendo com que, na prática, o Escutismo aconteça na comunidade.
  • Para quê? Atingir o Propósito do Escutismo, que deriva da Missão do Escutismo, sendo que esta está centrada na ideia de “criar um mundo melhor, onde as pessoas se sintam plenamente realizadas como indivíduos e desempenhem um papel construtivo na sociedade”.

Analisando a nova componente adicionada ao Método Escutista de uma perspectiva histórica, poder-se-á afirmar que esta acrescenta valor à versão do Método Escutista baseada em sete componentes? Não.

De outro ponto de vista, uma segunda perspectiva pedagógica, analisada à luz das mecânicas sociais do século XXI, permite afirmar que os dois conceitos-chave deste novo componente do Método Escutista mudaram significativamente nos últimos anos.

A ideia de “comunidade” evoluiu ao longo do século XX associada ao desenvolvimento de grupos sociais e ao tipo de relações estabelecidas entre os seus membros.

O conceito foi definido de acordo com determinadas características: a vivência em pequena comunidade; a população de uma divisão administrativa de pequena dimensão; como conotação de status ou posição social; a qualidade de partilhar traços individuais e características comuns; o sentido de partilha de identidade. Podemos também afirmar que, em “linguagem corrente“, o termo é muitas vezes difícil de definir e utilizado num sentido genérico.

Hoje, a ideia de comunidade continua a englobar as características previamente apresentadas, mas tem um significado e um impacto muito mais abrangentes.

  • O conceito de comunidade adquiriu o sentido de um espaço de diversidade, englobando pessoas com traços de identidade cada vez mais diversificados, sejam eles, étnicos, religiosos, socioeconomicos, de personalidade, culturais ou outros.
  • A comunidade deixou de ter “apenas influência” sobre o indivíduo, mas também se tornou um espaço que fomenta uma dinâmica de aprendizagem individual e de grupo muito própria, sendo estas duas dimensões complementares no processo de desenvolvimento de cada pessoa.
  • A comunidade deixou de ser sobretudo um espaço físico para se tornar um espaço onde se nurtura entreajuda, diálogo e participação. No geral, a comunidade deixou de ser um espaço da sociedade e passou a ser um espaço de encontro de sociedades.

Por outro lado, o ideal de “servir a comunidade” tem também hoje um sentido ampliado. Servir a comunidade não significa somente actuar ou intervir para ajudar ou em “prol do outro”; mas sim fomentar o envolvimento, com um propósito de bem comum, em colaboração “com o outro”. Seja esse “outro” indivíduos, grupos, associações, causas, ou entidades públicas ou privadas.

Analisando a nova componente adicionada ao Método Escutista desta perspectiva pedagógica, poder-se-á afirmar que esta acrescenta valor pedagógico à versão do Método Escutista baseada em sete componentes? Sim! Mas há que verdadeiramente enquadrar esta nova componente na vivência de unidades, agrupamentos e associações.

Na prática isso significa:

  • Dar espaço a crianças e jovens para que eles próprios assumam um papel central no projecto educativo do Escutismo, utilizando o seu conhecimento da comunidade e as suas expectativas pessoais e de grupo para actuar na comunidade;
  • Criar uma dinâmica de Escutismo verdadeiramente participativa nas iniciativas, problemas e desafios das comunidades, em colaboração com o “outro”, e não estar encerrados num “Escutismo de sede” ou numa mentalidade de “Escutismo de grupo restrito”;
  • Promover, individualmente e como associação, a adopção de métodos de trabalho que permitam conhecer as diferentes culturas e sociedades ao nosso redor, tendo como objectivo ser facilitadores da vida em comunidade;
  • Aumentar a exposição de crianças e jovens a oportunidades de aprendizagem que lhes permitam conhecer e compreender as diferentes sociedades que os rodeiam, vivendo e aceitando a diversidade das suas comunidades;
  • Rever os nossos programas educativos para que, como base e não por acrescento, sejam imbuídos de objectivos educativos com enfoque na aprendizagem através da diversidade (considerando todas as dimensões de diversidade existentes).

Adicionar um novo componente ao Método Escutista não é um ponto de chegada, mas sim o primeiro passo para mudar modelos mentais e sobretudo as formas de viver a essência do Escutismo, desenvolvendo experiências verdadeiramente enriquecedoras que preparem crianças e jovens para os contextos locais actuais, que mudaram significativamente nas últimas duas décadas, e para um futuro global, cujos desafios tão pouco conhecemos.

José Figueira

Advisor, Educational Methods

World Scout Bureau

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